|
AUGUSTO
DOS ANJOS - PARTE 2
Augusto tinha veneração pelo pai. Foi ele,
no início, que lhe ensinou sobre o mundo, foi o seu primeiro professor. Os
poemas sobre o pai se contam entre os mais belos do poeta. Citaremos alguns
trechos:
A meu Pai morto
E saí para ver a Natureza!
Em tudo, o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai, subindo ao Céu!
A meu Pai, ao sétimo dia de seu falecimento
Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos,
Roída toda de bichos, como os queijos,
Sobre a mesa de orgíacos festins!...
Amo meu Pai na atômica desordem,
Entre as bocas narcófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
Sempre a preocupação da morte e o aspecto
repugnante de que ela se reveste:
Eu sou aquele que ficou sozinho,
Cantando sobre os ossos do caminho,
A poesia de tudo quanto é morto!
(O poeta do hediondo)
Assim é que Augusto dos Anjos é único no
cancioneiro do Brasil e da América. Talvez do mundo. Se há os que o detestam,
existem alguns que o consideram o maior de nossos poetas. Há quem o compare a
Edgar Allan Poe, também necrófilo.
Mas Poe é o escritor do fantástico (O
Corvo, Os Sinos, Anabel Lee), enquanto que Augusto apóia a sua arte na dura
realidade científica. Pessoalmente, porém, Augusto é tímido, introvertido,
deprimido, enquanto que Poe atinge a psicopatologia.
A propósito, Gondim da Fonseca, em seu
livro "Poemas da angústia alheia", afirma que se Poe não tivesse sublimado
a sua loucura na arte literária, teria sido, talvez, assassino ou bandido.
Augusto e a luta da consciência
A consciência humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite ele entra
Impererceptivelmente em nosso quarto!
(O Morcego)
Sobre a Moral: o poeta acompanha a
moral do seu tempo, em A Meretriz, A Pecadora, O Lupanar:
Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!
(O Lupanar)
As oposições:
As alegrias juntam-se às tristezas
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!...
(Contrastes)
Ser miserável, dentre os miseráveis,
-Carrego em minhas células sombrias
Antagonismos irreconciliáveis
E as mais opostas idiossicrasias!
(Vítima do dualismo)
A depressão:
Não, não busques saber por quê, senhora.
É minha sina perenal, tristonha,
-Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.
(Soneto)
E eu, somente eu, hei de ficar trancado
Na noite aterradora de mim mesmo!
(Trevas)
O Caráter: em criança, o poeta teve uma ama
de leite escrava e sua mãe a repreendia por praticar pequenos furtos.
Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o oiro que brilha...
Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha.
(Ricordanza della mia gioventù - complexo de culpa típico de um deprimido)
Em um de seus poemas, Augusto retrata
o diálogo de uma criança com seu pai, ao vê-lo derrubando uma árvore de sua
propriedade:
-Meu pai, por que tua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs alma nos cedros...no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma.
(A árvore da serra é um
dos primeiros poemas de Augusto. Haverá aí já alguma preocupação ecológica ?)
A Natureza: respeitoso com Deus, Augusto
demonstra sentimentos contraditórios pela natureza:
Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta,
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa, apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes,
Durante os desgraçados nove meses!
(Poema negro)
Entre crer e não crer, o poeta vê-se
dominado pelo tormento da dúvida:
Desci um dia ao tenebroso abismo,
Onde a dúvida ergueu altar profano;
Cansado de lutar no mundo insano,
Fraco que sou, volvi ao ceticismo.
................................
-Oh, Deus, eu creio em ti, mas me perdoa!
Se esta dúvida cruel que me magoa
Me torna ínfimo, desgraçado réu.
Ah, entre o medo que o meu Ser aterra,
Não sei se vivo p'ra morrer na terra,
Não sei se morro p'ra viver no Céu!
(Ceticismo- haverá aqui
uma sugestão de suicídio?)
Demonstrando preocupações filosóficas,
Augusto coloca no poema a seguir as clássicas indagações humanas Quem sou, de
onde vim e para onde eu vou que têm acompanhado o ser humano ao longo dos
milênios.
A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
-Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
(Poema negro)
Augusto e o amor
Falas de amor, e eu ouço tudo e calo.
O amor na Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.
(Idealismo)
O amor e o estudo
Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências, menos esta ciência.
(Versos de amor)
A forma: tanto quanto eu saiba, uma única
vez o poeta paraibano deixou o decassílabo pela redondilha maior. Foi em Barcarola,
visivelmente uma experiência:
Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
Espelham-se os esplendores
Do céu, em reflexos, nas
Águas, fingindo cristais
Das mais deslumbrantes cores.
...........................
Não parece outro poeta? A experiência não prosperou.
Augusto-otimista??
Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!
(Último credo)
Vieram todos, por fim, ao todo, uns cem...
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!
(Vencedor)
Até, talvez, os meados da década de
cinquenta, Augusto dos Anjos continuava extremamente popular, ao nível de
Castro Alves, Bilac e outros. Seu primeiro poema citado, Versos Íntimos,
era conhecido por muitas pessoas sem qualquer cultura literária. Hoje, está
esquecido, como todos os outros, desde que o ultramodernismo, querendo
aproximar-se do povo, dele baniu o interesse pela POESIA.
Autor: Luiz Roque - emails para
luizcroque@ig.com.br
(final)
Ver 1a. parte
Voltar
|